Punchline, de inteligência à vulgarização.


Por : FD-Jota

Indubitavelmente, um dos aspectos no qual a música rap tem uma vantagem alargada sobre os outros estilos musicais é o que diz respeito à composição ou à chamada "habilidade lirical". A escrita é, portanto, um exercício mental que ajuda os rappers a desenvolverem   a sua musculatura cerebral. 

"A escrita é, portanto, um exercício mental que ajuda os rappers a desenvolverem   a sua musculatura cerebral"

Surgem, de tempo em tempo, cada vez mais rappers dotados na arte da escrita, verdadeiros artistas que sobre um caderno pintam a sua inteligência em forma de rimas esbeltas e eruditas; rappers fiéis à boa escrita e que fazem um casamento 'polígamo' entre o intelecto com a originalidade, a ousadia e a criatividade... pois tais características permitem-lhes divorciarem-se da vulgaridade. Podem haver acessórios como o flow, dicção, bons instrumentais, performances, swagg e outros apetrechos que podíamos aqui acrescentar... mas, quando o assunto é "Rap Game", o bom jogo de PALAVRAS é a melhor táctica que um rapper pode usar. As composições de rap tocam-nos por possuírem um toque de autenticidade, uma rica diversidade, uma verdadeira demonstração de liberdade artística, e, acima de tudo, uma imposição de limites aos limites que 'limitam' o poder da criatividade. Mas um aspecto que tem-se notado no rap angolano da actualidade, é que aquilo que antes era tido como qualidade regrediu para quantidade, e aos poucos tem-se perdido a originalidade; 

"Mas um aspecto que tem-se notado no rap angolano da actualidade, é que aquilo que antes era tido como qualidade regrediu para quantidade, e aos poucos tem-se perdido a originalidade"

ora vejamos: Há alguns anos, os ouvintes de rap foram positivamente surpreendidos por um fenómeno denominado "PUNCHLINE", uma verdadeira inovação; tratam-se de rimas nas quais os rappers fazem brincadeiras geralmente engraçadas com palavras que podem possuir mais de um sentido e estimulam o ouvinte a usar de inteligência e reflexão para assim poder proceder a correta interpretação da implícita comparação existente nas linhas em questão. As punchlines emprestam uma verdadeira beleza textual às composições, e são de facto um ingrediente que os nossos ouvidos adoram saborear quando bem cozinhado nos sons. Tal fenómeno foi muito bem abraçado no Rap da lusofonia, especialmente em países como Portugal, Angola, Moçambique e até mesmo o Brasil, e neles encontramos manos que o empregam com bastante destreza e mestria. Algum tempo depois, a comunidade Hip Hop, representada pelo Rap, foi agraciada com mais um fenómeno que entre os ouvintes foi extremamente bem recebido: Os TROCADILHOS - O jogo de palavras que consiste em confundir os ouvintes com termos homónimos ou homófonos, polissémicos, ou simplesmente com DUPLO SENTIDO. Com uma certa excepção talvez ao Brasil, a onda dos Trocadilhos e/ou Duplo sentidos deixou o Rap lusófono completamente inundado (...e afogado?... risos...) . Nos "Rap Tuga", "Rap Mangope" e "Rap MOZ" este fenómeno deve ser mais aclamado que o próprio Ronaldo. É totalmente raro encontrarmos actualmente rappers que não façam uso de um desses dois instrumentos para tocar aos seus ouvintes; são realmente duas peças que deixam as composições de rap com muito mais requinte. Há algo de errado em usar PUNCHLINES ou DUPLO SENTIDOS nas rimas??? Nem de longe! Mas a melhor resposta para esta pergunta é: "Melhor que fazer mal, é não fazer" ! A intenção da nossa matéria não é de criticar negativamente, antes, é de sugerir, chamar à atenção para uma situação que cada vez mais tende a crescer. A verdade é que o uso massivo de punchlines e duplo sentidos por parte de rappers (principalmente aqueles que o fazem mal) tornou-os vulgares demais - Uma coisa que agora todo mundo já faz. Agradava-nos mais quando estes dois fenómenos tinham a ver com capacidade e não com generalidade; quando eram usados por uma minoria que não os tinham como moda, mas sim como modalidade. Parece que tropeçamos na autenticidade e caímos na vulgaridade. Queremos dar sempre mérito àqueles poucos rappers que o fazem magnificamente bem, mas a dura verdade é que PUNCHLINES e TROCADILHOS já não 'assustam' ninguém. Sabemos que são as coisas que mais encontraremos logo que colocarmos "play" numa canção, e é esta previsibilidade e monotonia que nos faz clamar por renovação ou inovação. Desafiamos assim os rappers a passarem para o próximo nível, aquele que vem depois das punchs e duplos, que já dão sinais de um envelhecimento bem visível. Agradecemos por todas as punchlines e duplos que já fizeram os nossos cérebros derramarem fluidos de excitação; nós não queremos que estes fenómenos entrem em extinção, pois até se combinarmos 3 fenómenos em cada estrofe, será muito maior a catástrofe (No bom sentido, é claro!...) Acreditamos na capacidade que os nossos artistas têm para desenvolver uma nova "ferramenta lírica", e pedimos que seja algo mais peculiar-mente angolano, algo mais nacional.

"Acreditamos na capacidade que os nossos artistas têm para desenvolver uma nova "ferramenta lírica", e pedimos que seja algo mais peculiar-mente angolano, algo mais nacional."

 Somos consumidores, isso dá-nos, até certo ponto(segundo o INADEC), o direito de exigir; e, com todas as evidências colocadas à mesa, a pergunta que não quer calar é: QUAL É O MAMBO QUE VEM A SEGUIR???
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